Quem nunca ficou anos a fio pendurado em uma assinatura ou preso a um serviço pela simples falta de paciência ou tempo de procurar alternativas?

Muitas empresas tiram boa parte de seus lucros de consumidores que são cativos pela inércia.

Foi bom para elas – enquanto durou.

Na era dos agentes de AI, este modelo de negócios pode estar prestes a ruir, porque os agentes fazem o trabalho que o humano não se dispõe a fazer.

Num artigo recente aqui no Brazil Journal, o empreendedor Kiko Homem de Mello disse que já usou um agente para negociar o reembolso de um curso, contactar o suporte do Booking para cancelar uma reserva de hotel, e identificar diversos conflitos de agenda.

Nos últimos dias, a rápida adoção do Muse, o assistente de AI da Meta, está fazendo um estrago nas ações de diversos setores –  como turismo, mídia, seguros e serviços financeiros – que historicamente se beneficiam do chamado inertia moat.

07 22 Mark Zuckerberg ok

A Goldman Sachs criou uma cesta temática que acompanha as ações de empresas que faturam com a inércia dos consumidores – o consumer inertia basket. Estão aí companhias de diferentes setores, como Netflix, Booking, Expedia, Charles Schwab, Allstate e Planet Fitness.

Desde o lançamento do Muse, há duas semanas, essa cesta caiu mais de 10% – indo na contramão do Nasdaq 100, que apesar de um recuo de hoje está próximo de seu all-time high, puxado pelas empresas de AI.

A rede de academias Planet Fitness já caiu 18% nos últimos cinco dias, e amarga desvalorização de 62% desde o início do ano.

O New York Times também vem sofrendo, com um tombo de 13% nos últimos cinco dias, e a seguradora Allstate teve desvalorização superior a 10%. No mesmo período, a Netflix caiu 7%, acumulando perdas de quase 20% desde o início do ano.

Analistas da Bloomberg Intelligence prevêem que os agentes de AI poderão ameaçar até mesmo plataformas de serviços online líderes em seus segmentos, como o Uber.

O selloff lembra o ocorrido com as ações de software as a service em fevereiro, sob o impacto da concorrência dos agentes da Anthropic e da OpenAI.

Enquanto isso, a Meta disparou 13% nos dois últimos dias, impulsionada pelos downloads do Muse. Em 30 dias, o papel sobe 33%.

É o ‘ChatGPT moment’ da Meta, disse a CNBC.

Segundo um analista do JP Morgan, o Muse tem o potencial para ser o app de AI mais usado, depois do ChatGPT.

Leonardo Otero – o fundador da Arbor Capital, uma gestora focada em ações globais – disse que a Meta foi uma das empresas que mais investiram em data centers e, ao contrário de startups como Anthropic e OpenAI, tem grande capacidade computacional para oferecer AI agêntica.

“Se o uso dos agentes começar a viralizar, como parece ser o caso agora, a Meta estará em uma situação ímpar,” afirmou Otero.

A empresa tem uma base de 3,6 bilhões de usuários que fornecem informações a todo o momento, em aplicativos como WhatsApp e Instagram – e agora, com os agentes de AI, os anúncios da Meta deverão ser ainda mais assertivos.

“O Muse foi muito bem recebido, há dados empíricos mostrando que foi o melhor produto de AI agêntica lançado até agora,” disse Otero.

Nos EUA, o Muse está em primeiro lugar entre os aplicativos mais baixados, tanto na loja de aplicativos da Apple como do Android.