O Bank of America está sofrendo uma tempestade perfeita – reportando ontem um resultado abaixo do esperado pelo mercado no terceiro trimestre, junto com uma multa bilionária que estava fora do radar dos investidores.
Para completar, o segundo maior banco dos Estados Unidos carrega uma perda contábil de cerca de US$ 100 bilhões em seu portfólio de bonds, as maiores no trimestre em toda a indústria.
Ontem a ação do BofA caiu cerca de 5% depois do resultado, e hoje abriu de lado. A empresa vale US$ 359 bilhões na Bolsa de Nova York.
O lucro do BofA no terceiro tri caiu de US$ 8,3 bilhões no ano passado para US$ 6,9 bilhões agora; a receita retraiu 17% para US$ 30 bilhões, e as comissões do banco de investimento caíram 11%.
Os números vieram ligeiramente abaixo do consenso, mas o que realmente pegou o mercado de surpresa foi uma multa de US$ 1,2 bilhão que o banco teve que pagar, e que reduziu o lucro líquido em US$ 0,17 por ação.
Essa multa teve a ver com violações relacionadas ao monitoramento de lavagem de dinheiro e ao descumprimento de algumas sanções. Segundo o Departamento do Tesouro, o BofA “terceirizou uma parte fundamental de seus esforços de conformidade regulatória,” buscando proteger suas receitas.
Na call com analistas, o CEO Brian Moynihan disse que os custos para corrigir esses problemas já estão incluídos em suas despesas.
“Entendemos a gravidade das questões de conformidade regulatória e somos responsáveis por fazer tudo corretamente,” disse o CEO, segundo a Bloomberg. “Investimos bilhões de dólares em tecnologia e destinamos milhares de funcionários ao combate aos crimes financeiros. Nossa equipe está bastante avançada nesse trabalho e comprometida em concluir as medidas exigidas pelos órgãos reguladores.”
Mas um tema ainda maior que tem preocupado o mercado são as perdas do BofA em seu portfólio de crédito, que aumentaram em US$ 22 bilhões no terceiro tri, chegando a US$ 104 bilhões.
Essas perdas – não realizadas – têm a ver com a marcação a mercado dos títulos que estão na carteira do banco. Durante a pandemia, o BofA fez um investimento massivo em títulos do Tesouro e atrelados à hipotecas; na época, os juros dos Treasuries estavam muito baixos, ao redor de 2% ao ano.
Com a alta recente dos juros, esses títulos se desvalorizaram, gerando perdas relevantes para o banco.
As perdas são contábeis e, caso o banco mantenha os títulos até o vencimento, não vão se materializar. Ainda assim, há o custo de oportunidade de ter o dinheiro travado em juros baixos – o que tem prejudicado a rentabilidade do BofA, ainda mais comparativamente a bancos como o JP Morgan, que não fizeram esse mesmo movimento.
As perdas do JP Morgan no terceiro tri, por exemplo, chegaram a US$ 26 bilhões, um quarto do montante reportado pelo BofA.
Segundo a Barron’s, o BofA vem defendendo que tem uma “grande flexibilidade de capital”, e que tem feito muitos recompras de ações e distribuições de dividendos, mas o portfólio de crédito com baixo yield tem contribuído “para uma significativa underperformance da ação em relação ao JP Morgan.”
Enquanto a ação do BofA cai 6% este ano, a do JP Morgan sobe 3%.
Nos últimos cinco anos, o gap é ainda maior: a ação do BofA subiu 5% ao ano em média, em comparação aos 18% do JP Morgan. Em retorno absoluto: o Bank of America subiu 25% nos últimos cinco anos, enquanto o JPM, 127%.





