A queda de 2,68% no Ibovespa no pregão de hoje esconde uma destruição muito maior em alguns setores e ações.
Casas Bahia, por exemplo, despencou 20% hoje, enquanto a Cosan perdeu 12%, a Cyrela caiu 11% e Cogna recuou 10%.
Mesmo segmentos considerados mais sólidos – como bancos e utilities – entraram na roda. O índice financeiro IFNC tombou 4,76%, e o de energia elétrica, IEE, caiu 3%, com a AXIA Energia recuando 5,2%.
Desde a reeleição de Lula, nos três pregões desta semana o Ibovespa já acumula perdas de 16,6%.
Mas a dor individual é maior que a coletiva. A Vamos, do grupo Simpar, já perdeu 60% de seu valor de mercado, seguida de Magazine Luiza (59%), Cosan (55%), Hapvida (52%), C&A e Cyrela (50%), MRV&Co (48%), e Localiza e Assaí (43%).

Em meio à sangria, investidores tentam entender até quando a surra vai continuar.
Para além da repercussão da eleição, um novo fator que pesou hoje foi uma revisão para cima das projeções de inflação pelo BTG. O banco elevou o IPCA esperado para 2027 de 4,8% para 5,9%. Para 2026 de 5,3% para 5,4%.
Esses números acenderam a luz amarela para a possibilidade de o Banco Central ter que parar o ciclo de redução de juros já na próxima reunião, pressionando as empresas mais alavancadas.
“Enquanto não houver sinais melhores de um ajuste (fiscal), a tendência é que as condições financeiras, ações e DI continuem piorando,” disse um analista do buyside.
“A trajetória antes das eleições já era insustentável e agora ficou pior. Tem gasolina e diesel represados, escala 6x1 e as benesses prometidas. O Governo em algum momento vai ter que passar a mensagem de que o que prometeu nas eleições não será cumprido e por hora não parecem prontos para fazer isso.”
Um gestor disse que, além disso, o mercado pode estar começando a precificar os riscos gerados pela decisão de Flávio Bolsonaro de buscar asilo nos EUA.
“Se o Trump não reconhecer a eleição e vier com sanções ou Lei Magnitsky, quem mais apanha é banco. Foi assim na Magnitsky: socaram os bancos.”
Hoje, Flávio primeiro publicou uma carta se proclamando o “verdadeiro presidente eleito” e agradecendo o acolhimento de Trump. Pouco depois, mudou esse trecho do texto, colocando-se apenas como “o líder do Brasil.’
O sócio de uma outra gestora disse que a pressão sobre a Bolsa pode continuar mesmo sem novas notícias, uma vez que diversos fundos multimercados tiveram perdas monumentais e podem precisar liquidar papéis para lidar com saques dos investidores.
Essa situação pode acabar gerando uma “segunda onda” de queda no mercado movida pelos saques, embora ele avalie que isso ainda não está acontecendo.

“Eu acredito que a queda do Ibovespa esconde um movimento mais profundo de reprecificação do risco brasileiro. A Bolsa ficou mais barata, mas isso não significa que o processo de ajuste tenha terminado.”
Esse gestor, que fez um hedge antes das eleições com uma posição vendida no Ibovespa, disse que muitos fundos estavam excessivamente alavancados na aposta Flávio, “100% confiantes na vitória dele.”
Com a indústria de multimercados machucada há tempos, parte dos fundos pode ter visto na eleição a chance de salvar o ano, deixando de lado a cautela.
“O que acontece quando TODOS vão na mesma direção? Como dizia o Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra,” disse este gestor.
O ex-analista do UBS-BB, Giuliano Ajeje, disse em uma publicação no LinkedIn que “a violência da reação dos mercado sugere que havia pouca proteção” para o caso de uma surpresa eleitoral.
"O mercado apostou numa vitória de Flávio Bolsonaro. Lula venceu. Quem pagou caro por uma probabilidade de 70% descobriu que 30% também acontece.”
Entre os setores, desde o domingo, o índice imobiliário IMOB lidera as baixas com 33,6%, seguido pelo de small caps, que despenca 30%. O índice de consumo, ICON, que reúne empresas expostas ao varejo, perde 28,5%, e o financeiro, IFNC, 26,3%. O índice de elétricas IEE cai 19%.
Só entre sexta passada e terça-feira (sem contar a queda de hoje), o Ibovespa já perdeu R$ 662 bilhões em valor de mercado.

