Já se vão 24 anos desde a primeira vitória de Lula – e agora, como em 2002, o Presidente iniciará um novo mandato sob profunda desconfiança dos mercados.
Lula 3 recebeu uma dívida do setor público equivalente a 72% e legou a Lula 4 um endividamento que já supera 82% do PIB.
O salto escancara a ineficiência do arcabouço fiscal – criado pelo próprio Governo atual.

Sem uma correção de rumo, os juros seguirão na estratosfera – sufocando o setor privado e empurrando o Governo para mais perto de uma crise da dívida. O custo anual da dívida está em 9% do PIB, e, sem aperto no lado da despesa, não há imposto que cubra essa sangria.
“A reeleição de Lula – intrinsecamente hostil à disciplina fiscal e adepto à distribuição de benesses – chega em um momento em que o forte crescimento da dívida pública torna sua rolagem cada vez mais custosa e a eficiência do setor público mais distante, colocando o País em trajetória de crise,” afirmaram os economistas da consultoria Pinotti & Schwartsman Associados num relatório de hoje.
Segundo a casa de análise de Maria Cristina Pinotti e Alexandre Schwartsman, o desafio emergencial do novo mandato, portanto, não se limita à contenção das despesas.
“Será necessário melhorar a alocação dos recursos públicos para que eles se convertam em contrapartidas concretas para a sociedade,” disse o relatório. “A mera expansão dos gastos primários ao longo do Governo Lula, que passaram de 17,9% do PIB no início do mandato para 19,2% esperados no final deste ano, não foi suficiente para evitar a impopularidade do Presidente.”
O custo da máquina pública – somando estados, municípios e União – já soma 18,3% do PIB. É um nível muito superior ao da mediana dos países emergentes (16,2%) e ao da América Latina (14,6%), segundo a consultoria. Os cálculos foram feitos a partir da base de dados do FMI.
“Para um volume de gastos do tamanho do brasileiro, a sociedade espera resultados à altura,” afirmou a consultoria. “Basta, contudo, olharmos para a qualidade dos serviços básicos providos pelo Estado, como educação, saúde e segurança, para constatar que essa expectativa não tem sido atendida.”
O padrão tem sido de ampliação dos desembolsos sem evolução expressiva dos indicadores.
Em educação, o nível de aprendizado permanece estagnado, como indicam os resultados do PISA, exame internacional que mede a proficiência dos jovens de 15 anos em leitura, matemática e ciências.
“Após a melhora observada no início dos anos 2000, o desempenho do País praticamente não avançou na última década,” afirmou o relatório. “Na edição de 2025, 72% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível 2, considerado o nível básico de proficiência em matemática, e pouco mais da metade não o alcançou em leitura e ciências.”
Na saúde, o gasto per capita mais do que dobrou nos últimos 25 anos, passando de R$ 472 para R$ 1.012 em 2025 (valores corrigidos pela inflação). O total supera hoje o alcançado durante a pandemia – e, ainda assim, a qualidade dos serviços continua sendo uma das maiores preocupações dos brasileiros, como mostram as pesquisas.
“À parte os gastos com serviços típicos de Estado, os gastos com transferências a pessoas e famílias também chamam atenção,” disse a consultoria. “Em 2023, o Brasil gastou 18,9% do PIB nessa categoria, em sua maior parte com previdência – mais do que o dobro da mediana da América Latina (7,6%) e dos países emergentes e em desenvolvimento (9%).”
Um exemplo recente de medida que aprofunda essa disparidade é o programa Pé-de-Meia, criado originalmente para manter os alunos na escola, com incentivos para que concluam o ensino médio. A extensão do programa aos universitários, anunciada por Lula a poucos dias da eleição, teve como único propósito transferir recursos a um público que poderia lhe render votos, disse a consultoria.
Segundo a Pinotti & Schwartsman, a insatisfação da população com os serviços públicos sugere que não basta discutir o tamanho dos gastos.
“Será preciso melhorar a qualidade dos serviços públicos, tornando-os compatíveis com a elevada carga de impostos paga pelos brasileiros,” afirmaram os analistas. “Nesse sentido, a busca por eficiência deverá ser prioridade do novo Governo, para que não se repitam os mesmos erros do passado.”
Logo de saída, entretanto, Lula 4 terá que lidar com as bombas legadas por Lula 3 – e os mais de R$ 350 bilhões em novas despesas aprovadas e prometidas na corrida eleitoral.





