Lula está virando? Para a Legacy, não é bem assim

Lula está virando? Para a Legacy, não é bem assim

As pesquisas da Quaest e do Datafolha causaram apreensão na Faria Lima.

Os dois institutos agora mostram uma disputa mais apertada entre Flávio e Lula, com uma diferença de apenas dois pontos entre os candidatos – um empate técnico considerando a margem de erro.

Mas para a Legacy Capital – uma gestora de R$ 14 bilhões que desde 2018 faz uma série de estudos internos durante as eleições presidenciais – os números não significam necessariamente que Lula esteja começando uma virada. 

Ao contrário: na avaliação da gestora – cujos dados  combinam pesquisas próprias com análises dos microdados dos institutos e padrões históricos de votação – a probabilidade de o Presidente reverter a disputa continua limitada.

Leonardo De Paoli, um economista e sócio da Legacy, disse que a gestora trabalha com um cenário-base de 52% dos votos válidos para Flávio e 48% para Lula, e atribui uma probabilidade superior a 80% à vitória do senador.

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Para ele, uma eleição apertada não significa necessariamente que os dois candidatos tenham probabilidades semelhantes de vitória – especialmente quando o eleitorado está consolidado e o espaço para mudanças é pequeno.

Segundo os dados da Legacy, a disputa pode terminar em 53% a 47% ou, no cenário mais apertado, em 51% a 49%. Para a gestora, seria necessária uma mudança relevante no comportamento dos eleitores para alterar o vencedor. 

Parte da explicação está em como os institutos tratam os eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno.

Na pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira, dos entrevistados que declararam haver se abstido no primeiro turno – um grupo que representou 22% do total de eleitores – 43% afirmaram que votarão em Lula no segundo turno, enquanto 38% disseram que votarão em Flávio.

Outros 17% disseram à Quaest que votarão em branco, nulo ou não comparecerão, e 2% estão indecisos.

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Se todos esses eleitores estiverem falando a verdade, isso faria a abstenção cair de 22% no primeiro turno para 4% no segundo – algo impensável ao se comparar com as eleições anteriores.

Segundo Leonardo, os dados históricos sugerem que a maior parte dessas pessoas continuará sem comparecer às urnas – mas suas intenções de voto entraram no cálculo da Quaest, criando um viés pró-Lula.

A história mostra que a abstenção costuma apresentar relativa estabilidade entre os dois turnos. Em 2022 (Lula X Jair) por exemplo, a abstenção deslizou de 20,95% no primeiro turno para 20,59% no segundo – uma queda de apenas 0,36 ponto.

É justamente para lidar com essa questão que os institutos costumam utilizar a metodologia conhecida como likely voter – utilizando dados históricos e características demográficas para estimar a probabilidade de cada entrevistado ir às urnas.

Segundo Leonardo, apesar de utilizar a metodologia, a Quaest não teria feito adequadamente o ajuste de comparecimento para a votação do dia 25 de outubro.

Ao fazer este ajuste, a Legacy chegou ao resultado de 52% a 48% para Flávio e Lula, respectivamente. Em suas projeções, a gestora combinou pesquisas contratadas com a análise dos microdados de diferentes institutos, “reponderando” as respostas de acordo com características demográficas e padrões históricos de votação.

Este trabalho ajudou a Legacy a identificar, nas duas últimas semanas do primeiro turno, uma vantagem de Flávio sobre o Lula, enquanto a maior parte dos institutos dava Lula na frente.

Segundo o economista, vários institutos mudaram suas metodologias depois dos erros observados em 2022, quando o “voto envergonhado” em Jair não foi capturado. Tentando acertar mais, os institutos passaram a calibrar as amostras com base no voto declarado pelos entrevistados na eleição de quatro anos atrás. Mas a tentativa de corrigir os erros anteriores pode ter criado um novo problema.

Como muitos entrevistados não se lembram do voto em eleições anteriores – ou informam uma preferência diferente de seu voto real – o ajuste pode acabar dificultando a identificação de mudanças recentes na intenção de voto.

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“Essa mudança metodológica fez com que as pesquisas ao longo de quase o primeiro turno inteiro não tivessem movimentos relevantes, e elas não conseguiram efetivamente capturar o que aconteceu principalmente no último mês das eleições,” disse Leonardo.

Enquanto boa parte do mercado trabalhava com uma vantagem de aproximadamente três pontos para Lula, a Legacy já identificava a possibilidade de uma disputa praticamente empatada, com Flávio podendo terminar numericamente à frente.

No final, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos; Lula, 45,16%.

Para o segundo turno, além dos ajustes metodológicos, a Legacy considera outros dois fatores que dificultariam uma recuperação do presidente.

O primeiro é o histórico de transferência de votos dos candidatos derrotados no primeiro turno.

Usando dados do TSE das eleições de 2018 e 2022, a Legacy estima que, naquelas eleições, Bolsonaro recebeu cerca de 70% dos votos dados a outros candidatos no primeiro turno, enquanto Fernando Haddad e Lula receberam 30%.

Na avaliação do economista, essa dinâmica representa uma vantagem adicional para Flávio, que já terminou o primeiro turno à frente de Lula.

O segundo fator é a distribuição regional da abstenção. O Nordeste registrou no primeiro turno uma abstenção historicamente baixa, enquanto o Sul apresentou uma taxa elevada em comparação com eleições anteriores.

Na avaliação dele, isso limita a possibilidade de uma mobilização adicional suficientemente grande nas regiões onde Lula tem maior apoio.

A Legacy também considera que o eleitorado está bastante consolidado, com pouco espaço para migrações diretas entre os dois candidatos.

Para o economista, o cenário-base de 52% a 48% poderia oscilar aproximadamente um ponto percentual para cada lado. 

Mesmo com o empate técnico apontado pelas pesquisas, Leonardo continua atribuindo uma probabilidade superior a 80% à vitória de Flávio – a não ser que o imponderável aconteça. 

“Precisaria de uma coisa muito grave do Flávio para, de fato, reverter o jogo,” disse.