O sonho de Daniel

Filho de uma diarista e o mais novo de 11 irmãos, Daniel José de Oliveira teve sua vida transformada pela educação.

Formou-se em economia pelo Insper com bolsa da Fundação Estudar, e mais tarde foi admitido em Yale num mestrado em relações internacionais que só aceita 25 alunos por ano.

Seu currículo marca todas as caixinhas para uma carreira lucrativa e promissora na iniciativa privada, onde ganharia um múltiplo do que seus pais jamais receberam.

Em vez disso, Daniel está disposto a fazer uma incursão pelo pântano em que se transformou a política brasileira, contrariando a tese, cada vez mais difundida, de que 'quem é honesto não chega perto'.

Aos 29 anos, quer ser deputado federal.

Filiado ao Partido Novo desde 2016, ele está na fase final do processo seletivo do partido para se candidatar pelo Estado de São Paulo, e é um símbolo do processo de renovação gerado pelo asco aos políticos tradicionais que deve pautar as eleições de 2018.

O sonho de Daniel: transformar a vida de crianças e adolescentes com origens como a dele.

“Esforço é super importante, mas a sorte também é um fator determinante”, diz, desafiando o discurso puramente meritocrático. “Eu sempre tive bolsa, o que foi uma baita sorte – e uma sorte que gente com muito mais talento que eu não tem.”

Franzino e de barba rala, Daniel aparenta ainda menos idade. Nas palestras que é convidado a dar em escolas, aparece de jeans, camiseta e boné para trás – tudo para se aproximar dos alunos (com os quais poderia ser facilmente confundido).

Mas fala com a assertividade de quem teve uma formação acadêmica normalmente só acessível à elite – e o pé no chão de quem conhece as dificuldades de se nascer pobre no Brasil.

O conjunto de qualidades está lhe trazendo apoio e mentoria de gente grande no mercado, como o economista André Lara Resende; o ex-CEO do grupo Falconi, Mateus Bandeira; o sócio da Tarpon, Eduardo Mufarrej; e o sócio da gestora M Square, Maurício Bittencourt.

Sua plataforma como deputado é trabalhar para que outros jovens não dependam da sorte – ou de bolsa – para decolar. Ele ilustra o problema com uma estatística aterradora: de cada 10 garotos de 19 anos das classes C/D/E, um está na faculdade, dois no ensino médio, três estão trabalhando e quatro não fazem nada. Entre as meninas, a distribuição é ainda mais grave: 1, 2, 2 e 5. Cerca de 10% engravidam em idade escolar, e 75% delas não voltam a estudar.

Para Daniel, a solução – ou o começo dela – passa por iniciativas voltadas ao ensino técnico e que conectem os anos do ensino médio ao mercado de trabalho. “Quando esse cara terminar de estudar – e se ele termina de estudar, porque muitos não terminam – ele não sabe o que fazer. A escola não preparou ele para nada”, diz.

No seu caso, o primeiro aceno da sorte veio com uma tia freira, que conseguiu uma bolsa de estudos para que ele cursasse a educação básica e o ensino médio numa escola católica privada em Bragança Paulista, sua cidade natal.

Não foi bom aluno. Preferia o futebol aos livros e passava raspando nas matérias, apesar das puxadas de orelha da mãe, que sempre cobrou boas notas.

Até que, no segundo ano do colegial, a perspectiva de ficar preso à pequena Bragança começou a assombrá-lo.

Começou a devorar as apostilas e passou (de primeira) no concorrido vestibular do Insper. Para o primeiro semestre, conseguiu uma bolsa de estudos de 80% da própria instituição, e angariou os outros 20% com conhecidos e amigos da família. Em seguida, participou do processo da Estudar, que financiou todo o curso. “Fiz entrevista com o Jorge Paulo, o Beto e o Marcel sem fazer a menor ideia de quem eles eram”, diz.

Foi morar com um irmão na periferia de São Paulo, próximo a Diadema, e chacoalhava mais de duas horas do ônibus para chegar ao Insper, onde alguns colegas de classe chegavam com carros importados. Com R$10 por dia no bolso, aprendeu a comer salada: “Era mais barato no restaurante por quilo”.

Depois de Bragança, era o Brasil que tinha ficado pequeno: no ano seguinte, conseguiu uma nova bolsa para uma universidade da Suíça – a única que permitia aos estudantes trabalhar meio período. Empregou-se numa empresa que defumava salmão, para arcar com os gastos além da mensalidade.

De volta ao País, concluiu a faculdade e passou no processo de trainee do JP Morgan, mas ficou só um ano e meio lá. Pegou as economias que tinha juntado e partiu para uma temporada de oito meses como voluntário num campo de refugiados na Jordânia.

No novo retorno ao Brasil, foi contratado como analista de investimentos da M Square, onde trabalhou ao lado de Maurício Bittencourt, até hoje um de seus principais mentores.

“O Daniel é um cara fantástico, que faz as coisas acontecerem e era brilhante nas análises”, diz Bittencourt. “Mas quando ele trabalhava aqui eu já comentava com meus sócios: ele tem um outro perfil, um outro chamado, esse cara não quer trabalhar para o bem dele, ele quer trabalhar para o bem dos outros.”

Dito e feito.

Com um ano na gestora, Daniel deixou o trabalho e partiu para Yale, onde conseguiu uma bolsa de estudos extremamente concorrida. Lá, devorou clássicos da estratégia como Bismarck, Maquiavel e Clausewitz. Para dar conta da carga de leitura, desenvolveu uma técnica: lia os textos acompanhados do audiobook numa velocidade duas vezes superior ao normal.

Nas férias, em vez de conseguir um 'summer job' como a maioria dos alunos, desenvolveu um projeto de pesquisa próprio: rodou as 20 cidades brasileiras com o menor IDH – um percurso de 15 mil quilômetros feito em duas semanas – para constatar onde estavam os maiores problemas do País, depois consolidados num conjunto de artigos.

“O pacto federativo tem muitos problemas. Como que Satubinha, no Maranhão, tem a mesma estrutura administrativa de São Paulo?”, questiona, emendando um absurdo no outro: “Você chega na secretaria de educação de um município do Amazonas e tem duas pessoas sentadas, dormindo. Ninguém quer trabalhar, não tem incentivo para as pessoas trabalharem.”

Concluído o mestrado, foi convidado a estruturar a Falconi Educação, o braço da consultoria de Vicente Falconi que atua com a educação nas esferas pública e privada.

“É um trabalho fantástico, eu sentia que fazia diferença na vida das pessoas. Mas no fim das contas, quem toma as decisões é quem segura a caneta, e eu percebi que se quisesse de fato mudar as coisas tinha que me candidatar e ir para Brasília.”

Largou o emprego em abril deste ano – para o desespero de sua mãe, que ficou mais assombrada com a perspectiva de ter um filho deputado do que quando Daniel decidiu ir para a zona de guerra na Jordânia.

“O Daniel tem uma clareza de princípios que é muito rara nesse meio. Do ponto de vista de propósitos, ele sabe o que quer, a que veio e como chegar lá”, diz Lara Resende, que conheceu o prodígio-candidato recentemente. “O desafio é conseguir enfrentar a política tradicional e viabilizar uma candidatura num sistema que só quer expulsar a renovação.”

Se passar pela peneira do Novo, Daniel pretende viabilizar sua candidatura com recursos de pessoas físicas, e está focando esforços em como comunicar sua plataforma. O Brazil Journal conheceu Daniel no processo seletivo do Renova, o fundo que planeja dar bolsas e cursos para aumentar o ferramental dos candidatos.

“Sempre tive essa vontade de servir, mas pensava em entrar na política mais velho... Mas a hora é agora”, diz. “Há quatro anos seria uma mega forçada de barra, vários jovens tentaram e nenhum deles conseguiu. Mas a insatisfação com os políticos é tão grande que ano que vem tem que ser diferente.”

Sonhando com um Brasil melhor, o filho de Bragança cita Victor Hugo: “Não há ideia mais oportuna do que aquela cujo tempo chegou.”