Esses argentinos amam o Brasil

Kaszek levanta o maior fundo de VC da América Latina

O mercado de empreendedorismo digital está se mostrando uma ilha em meio à crise econômica e política do Brasil.

A Kaszek Ventures, gestora de venture capital do fundador do Mercado Livre, acaba de levantar um fundo de US$ 200 milhões – o maior de que se tem notícia na América Latina – para investir principalmente em startups brasileiras. A notícia foi antecipada ontem pelo New York Times.

Este é o terceiro e maior fundo da gestora, que já investiu em 57 empresas na América Latina. O portfólio inclui nomes de sucesso como Netshoes, Nubank, Dr. Consulta e a Loggi, o aplicativo para serviços de motoboy.

O montante é elevado para a indústria de VC e deve permitir o aporte em várias dezenas de empresas.

“Obviamente é melhor aplicar onde a macroeconomia vai bem. Mas, no nosso caso, o investimento depende muito mais da penetração da banda larga, do uso de novas tecnologias e não tanto do PIB. Temos algumas questões de curto prazo, mas os investidores acreditam que longo prazo o Brasil vai dar certo”, disse o co-fundador e managing partner da Kaszek, Hernán Kazah, ao Brazil Journal.

O novo fundo conta com investimento de brasileiros – que, por contrato, não podem ter o nome revelado – mas o grosso dos aportes veio de fundos americanos que já investem tradicionalmente no mercado de tecnologia.

Ente os investidores estão a Sequoia Heritage, que conta com o capital da controladora Sequoia Capital e investidores externos, a Dietrich Foundation – fundo de filantropia que administra US$ 800 milhões – e Kevin Efrusy, sócio da gestora de VC californiana Accel, que investiu como pessoa física.

Todos esses investidores já tinham entrado nos fundos anteriores da Kaszek, mas aumentaram os aportes no novo.

“As pessoas vão comprar mais bens e serviços online no Brasil em 10 anos do que elas fazem agora, independentemente da economia”, disse ao NYT o CFO da Sequoia Heritage, Keith Johnson.

“Se você esperar pelo sinal ‘all clear’, provavelmente vai ter perdido um ponto de entrada atrativo,” acrescentou Edward Grefenstette, presidente da Dietrich Foundation, ao jornal americano.

A Kaszek nasceu em 2011, quando Kazah e o CFO do Mercado Livre, Nicolás Szekasy, decidiram deixar a companhia e levar sua experiência para outras startups. O primeiro fundo captou US$ 95 milhões. O segundo foi lançado no começo de 2014, quando a economia brasileira já começava a dar sinais de desgaste, e levantou US$ 135 milhões.

A gestora fica baseada em Buenos Aires, mas cerca de 70% dos investimentos foram feitos em companhias brasileiras – padrão que deve se manter agora no seu maior fundo. “O Brasil é o mercado mais desenvolvido para tecnologia e empreendedores na América Latina, então é natural que os recursos venham para cá”, diz Kazah.

Além da Netshoes, a Kaszek investiu no shopping de vestuário OQVestir, no BelezaNaWeb, de cosméticos e artigos de perfumaria, e na Dress&Go, de aluguel de vestidos de festa. As imobiliárias online VivaReal e QuintoAndar, e o DogHero, espécie de AirBnb para bichos de estimação, também estão no portfólio.

A gestora apostou ainda no GuiaBolso, uma fintech que organiza finanças pessoais, e no Nubank.

O novo fundo não tem um mandato específico, mas a ideia é encontrar empresas voltadas para o mercado de saúde e educação – hoje, as únicas investidas na área são o Dr. Consulta e o OpenEnglish. “É um mercado promissor, mas está difícil de encontrar empresas nesta área”, diz Kazah.

Há seis anos no mercado, a Kaszek ainda não começou a fase de desinvestimento. Por enquanto, vendeu apenas a LoveMondays – site de RH colaborativo, que ranqueia salários e melhores lugares para se trabalhar – e ótica online eÓtica.

“O horizonte de nossos fundos é de cerca de 10 anos, então ainda temos muito tempo pela frente”, diz Kazah.