B2W queima menos caixa, mas ‘vendidos' dobram a aposta

A B2W está tendo seus dias de Magazine Luiza.

A dona de sites como Submarino, Americanas.com e Shoptime disparou na Bolsa desde que publicou seu balanço do segundo trimestre, na noite do dia 10. De lá pra cá, os papéis sobem quase 45%, e o fechamento na sexta-feira (R$ 18,48) foi o mais alto em dois anos.

A razão da euforia: a perspectiva de que a B2W vai finalmente parar de torrar caixa.

Nos últimos anos, os aumentos de capital para manter a companhia de pé quase viraram uma data no calendário do mercado de capitais. Ao todo, foram R$ 4,4 bilhões em aportes: R$ 2,4 bilhões em 2014; R$ 800 milhões em 2016; e R$ 1,2 bilhão em março. (A companhia vale R$ 8,3 bilhões na Bolsa hoje.)

Mas agora, a companhia começou a estancar a sangria. No segundo trimestre, a B2W queimou ‘apenas’ R$ 348 milhões, contra R$ 1,07 bilhão do primeiro trimestre e R$ 606 milhões no segundo trimestre do ano passado. Mais: a direção sinalizou que a empresa deve finalmente começar a gerar caixa na segunda metade do ano.

A inflexão é o resultado direto da migração da B2W para o modelo de marketplace, que já fez maravilhas para a Amazon e para o Mercado Livre, e que também explica parte do sucesso recente do Magazine Luiza.

No marketplace, os sites atuam apenas como intermediários, recebendo uma comissão para conectar vendedores e compradores. A estrutura, conhecida como 3P (ou third-party seller) é muito mais enxuta e rentável do que o modelo de ecommerce tradicional — o 1P (first party) — no qual as empresas compram dos atacadistas e vendem diretamente para os clientes, com custos pesados de estoque e distribuição.

No fim de junho, o marketplace já era 29,6% do valor das mercadorias vendidas (GMV, na sigla em inglês) da B2W, quase o dobro dos 15,9% do mesmo período do ano passado. A expectativa é que esse número supere os 30% este ano e chegue a 50% em 2018.

A B2W já tem mais de 6.000 fornecedores em seu marketplace oferecendo mais de 3,3 milhões de produtos – de eletrônicos a vinhos, passando por papelaria e produtos da Nestlé.

Com a estrutura mais leve, a companhia já sinalizou que vai fechar dois centros de distribuição nos próximos meses.

Apesar da redução da queima de caixa, a B2W está longe de ser unanimidade no mercado. Junto com a alta das ações, cresceu também a chamada 'posição vendida’, em que os investidores apostam na queda do papel.

O número de ações alugadas, que bateu 12 milhões ao fim de maio, vinha caindo ao longo dos últimos meses e chegou a 4 milhões no começo de agosto. Agora, com a esticada da última semana, voltou ao patamar de 9 milhões.

A principal preocupação é a concorrência. No segundo trimestre, enquanto o GMV da B2W subiu 10%, Mercado Livre e Magazine Luiza aumentaram suas vendas em 66% e 55%, respectivamente.

E há ainda o 'fator Amazon’, que pode ser uma ameaça letal — ou uma enorme oportunidade.

Os ‘comprados’ no papel sempre sonharam com o dia em que a Amazon vai comprar a B2W. Para eles, agora que a empresa tem uma logística azeitada (depois de anos tentando ‘crack the code'), ela se tornou um alvo ainda mais lógico, que permitiria à Amazon crescer mais rápido no Brasil.

O outro lado do argumento é tão defensável quanto. “Vemos riscos de uma competição ainda maior no Brasil, na medida em que a Amazon parece estar procurando oportunidades de expandir suas categorias de produtos no Brasil”, diz num relatório o analista Guilherme Assis, do Brasil Plural, que tem recomendação de venda e preço-alvo de R$ 11 para o papel.

O 'fator Amazon' transforma a B2W numa aposta binária: ou a empresa vai valer muito mais do que hoje, ou pode valer uma fração.